Que dia! Não sei se por falta de sorte ou pela força do destino, intentei de passar ali na Independência com a Chicuta e me deparei com escombros... Tchê! Onde está o Bar da nossa estória, no Edificio Morandi,? Pensei, mais um prédio sem graça em detrimento a um espaço nobre. Triste fim de um espaço vivo que ainda mora dentro de mim.
Foi concebido para ser lancheria também. Não tardou e logo assumiu sua exclusiva vocação de bar. E era um bar de respeito, tradicional, com regras muito claras. Não fumante não entrava! Venda ? Só de bebidas alcoólicas. Essas drogas diferentes nem falar. Preservava a saúde de seus parceiros.
De arquitetura perfeita, espaço físico na medida, que acolhia a todos confortavelmente “um em cima do outro”. Mesas dispostas de forma a livrar teimosas goteiras, probleminha de todo bar que se preza. Janelas não muito grandes mas que permitiam visualizar quem chegasse e movimentações externas suspeitas. Uma porta estrategicamente localizada nos fundos, sempre aberta, pronta para retiradas rápidas e que desembocava num providencial ponto de táxi. Banheiros? Dois; para damas e cavalheiros, simples, não muito limpos, com tramelas, porém seguros. De bar!
De nada valeria isso sem um atendimento eficiente. O garçom, vivido e vivo, escutava as mesmas histórias todas as noites, sempre com mulher no meio. Às vezes notava-se em seus olhos o desejo de sentar-se ali, beber alguma coisa, e também contar a sua. Triste, como todas. Sabia das preferências de cada um. A elegante Parker 51 indiscretamente colocada no bolso do seu colete, bem à vista, comprovava, subliminarmente, sua pseudo origem burguesa. Mas, a caneta para que? Registrava tudo na cabeça. Bem gelada, pouco gelo, muito gelo, aquela pedida com os olhos, sinalizada com os dedos, com colarinho sem colarinho. Lá pela meia-noite, assoberbado pelos pedidos e influenciado pela dose generosa e discreta da purinha que tomara, trocava tudo. E ninguém reclamava!
De temperamento indócil, ansioso, rápido, solicito, voava por entre as mesas equilibrando aquela bandeja prateada. Só num momento parava, cristalizava, paralisava. Era quando a vitrola tocava “Garçom! Aqui! nessa mesa de bar você já cansou de escutar.....” Desabava num choro incontido, abraçava-se aos clientes mais próximos balbuciando alguma coisa. Um dia, melhor, uma noite, escutei que murmurava baixinho, Norma, Norma.... Choravam todos, solidariamente.
O bar literalmente vinha abaixo. Nesse momento o garçom era o personagem principal, todos o rodeavam, homens, mulheres, o porteiro, até o dono do bar. Alguns diziam “a vida é assim mesmo”, “que ingrata”, “bandida”, um mais prático dizia “arruma outra”. Terminada a música, como por encanto, todos se recompunham, desidratados pelas lágrimas, voltavam, copos às mãos, aos seus lugares. E o garçom, como se nada acontecera, retomava sua tarefa. Mais lépido ainda, como se sua alma fosse reabastecida.
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E o repertório musical então! De primeira. Verdadeiros hinos! Compostos, musicados e cantados por gente do ramo. As preferências variavam. A turma da purinha e da ceva gostava daquelas tipo Reginaldo Rossi; Garçom, a que derrubava o próprio, A Dama de Vermelho, A Boate Azul. Já o pessoal do whiskey , mais finórios, era chegado em Vinicius de Moraes. Bom Dia, Tristeza, de sua marca, com a Maysa era a preferida.
Lembrança forte. Parece-me que estou ouvindo os olhos verdes da Maysa cantarem...
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Que lástima! Não sobrou nada do estabelecimento, nem mesas, garrafas, a velha Frigidaire, aquelas cadeiras, nem a comanda das penduras, tampouco as anotações do jogo do bicho, e muito menos a bandeja prateada do garçom. Completamente nada! A não ser um antigo luminoso da Antarctica pendurado em um poste, prestes a ser engolido por uma caçamba de recolhimento de caliça. Os Pingüins, indefesos, percebiam-se tomados por convulsivo choro, não pelo seu fim, visto que desaparecer é inerente à vida, mas daquela forma não, desonrosa, degradante, para quem sempre conviveu com luzes, e do alto, testemunhas mudas e confiáveis de tanta coisa. Seria pura injustiça.
Agi rápido. Num átimo, negociei com os pedreiros, legítimos representantes daquela bagunça no momento, inocentes instrumentos de destruição, quiçá antigos e agora órfãos freqüentadores do nosso bar. Tomei posse daquela importante peça, única lembrança que restou e que tinha a missão de tal qual um farol visto a distância na escuridão das noites frias de Passo Fundo, apontar o caminho seguro daquele verdadeiro templo.
De saída, em pleno sol a pino, certamente em transe, embriagado pela aura do lugar, confuso, eufórico com o valioso troféu, agora sorrindo, sentindo um perfume barato inundando o ambiente misturado à fumaça de cigarro, escutando ao fundo as inconfundíveis lamúrias da Maysa, JURO, ACREDITEM,ouvi vozes, várias, entrecortadas, tristes, que diziam; Garçom a saideira!
Coisa de bar.
Ótima!! Adorei! Dá até um certo aperto no peito a melancolia da derradeira saideira...
ResponderExcluirMuito bom, Guggiana. É assim mesmo: as coisas guardam a memória do tempo. Com eles desaparecendo, desaparece também a memória dos causos que vivemos. Desaparecemos nós também. A morte que se acerca, o terror maior do homem.
ResponderExcluirSó ficou uma dúvida: o bar da foto é não é da esquina da Benjamin com a Moron? O Bar da Moa de que falas em outra crônica? Nesta, começas falando como se este bar estivesse localizado na Chicuta com a Independência. Não entendi.